O solitário caçador

Essa é a história de um homem que não tinha nada. Destinado à perder tudo, ele lutou. Lutou por sua honra, por sua vingança. Caçou, perseguiu. Fez coisas das quais alguém não deveria se orgulhar - mas fez, se orgulhou. As pessoas lembram dele como o forasteiro, o caçador que sempre tinha um revólver carregado preso ao cinto. O forasteiro perigoso com o qual ninguém gostava de falar. 

A história dele, sempre fora um mistério - talvez isso o tornasse tão mortal. Tudo o que se sabia era que ele viera de longe, de uma terra de ninguém, e que a única coisa que trouxe consigo foi seu nome e sobrenome - a única coisa que realmente lhe pertencia. Sob o chapéu, ninguém jamais o vira sorrir. Ele falava pouco. Apenas era sabido que não era bom mexer com aquele homem, o forasteiro - o caçador. 

De cidade em cidade, ele construiu a sua fama. Quando o dia raiava, era quando ele chegava - ninguém ousava lhe dizer que era cedo demais.

Ele fazia seu destino, fazia sua própria lei. Um caçador de recompensas, foi o que ele se tornou. Trazia justiça àqueles que fugiam dela. Para afogar sua própria angústia, para ganhar mais ouro - ninguém nunca ousou lhe perguntar. Tudo que se sabia era que o forasteiro não fazia nada pela glória. Ele escrevia sua história, pois seu passado era triste demais. 

Seu pai ele não conhecera - sua mãe, ele não sabia onde estava. A mulher que ele amou, já não estava mais aqui. Sua vida - tudo o que o forasteiro tinha - fora tirado de seus braços por àqueles que ele jurou caçar até encontrar. Em Deus, ele já não acreditava. Tudo o que ele amara lhe foi tirado brutalmente. Do amor e perdão, ele já não era capaz de lembrar. O ódio e a raiva lhe cegaram, corromperam seu coração e sua mente. A vingança era em tudo o que ele pensava - matar aquele que lhe matou, aquele que matou sua mulher e levou consigo o que restava de seu pobre coração.

O rosto - era tudo o que ele conseguia lembrar.
O rosto - era tudo o que ele procurava em cada cidade pela qual ele passava. O forasteiro matador só desejava a morte daquele rosto, o rosto que lhe apresentara a dor e a destruição.

As pessoas que contam a história do caçador, dizem que tudo aconteceu em uma tarde ensolarada. O fim do caçador, o fim da sua dor. Dizem que, atrás de uma mesa de bar, o rosto das memórias dele apareceu. O forasteiro bebia sozinho, fedia à uísque barato. Mas, mesmo depois de várias doses, ele foi capaz de reconhecer aquele rosto decrépito que lhe tirara a última faísca de esperança. 

É difícil esquecer o rosto daquele que lhe tirou tudo.

Depois de tanto caçar, de tanto lutar, o forasteiro já não lembrava do sentido de tudo aquilo - apenas do maldito rosto. Dizem que ele se levantou e antes de ir até o homem das suas lembranças, ele bebera uma última dose de um uísque qualquer. O forasteiro - o caçador, atacou sem realmente atacar. 

Ele estava bêbado demais para matar alguém naquele dia.

A faca atravessou o peito do caçador, fazendo-o cair para trás com um solavanco. O maldito homem tirou a faca do peito do caçador, limpou o sangue e sorriu, ajoelhando-se ao lado dele. "Eu me lembro de você" - o homem disse ao caçador. E sorriu. Mais um morto pelas suas mãos, o maldito pensou. A satisfação dele enfureceu o caçador. Seu último suspiro serviu para alcançar a faca escondida em sua bota e cravá-la na garganta do homem maldito que assombrara seus sonhos. 

O sorriso morreu com aquele que só trouxe a dor - 
Ao contrário daquele que conheceu o amor
- e que morreu sorrindo.


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